domingo, 9 de junho de 2019

O peixe


Tendo por berço o lago cristalino, 
Folga o peixe, a nadar todo inocente, 
Medo ou receio do porvir não sente, 
Pois vive incauto do fatal destino. 

Se na ponta de um fio longo e fino 
A isca avista, ferra-a inconsciente, 
Ficando o pobre peixe, de repente, 
Preso ao anzol do pescador ladino. 
O camponês também do nosso Estado 
Ante a campanha eleitoral, coitado! 
Daquele peixe tem a mesma sorte. 

Antes do pleito, festa, riso e gosto, 
Depois do pleito, imposto e mais imposto 
Pobre matuto do sertão do norte! 

Cante lá que eu canto cá: poema e declamação de Patativa do Assaré



Poeta, cantô da rua, 
Que na cidade nasceu, 
Cante a cidade que é sua, 
Que eu canto o sertão que é meu.

Se aí você teve estudo, 
Aqui, Deus me ensinou tudo, 
Sem de livro precisá 
Por favô, não mêxa aqui, 
Que eu também não mexo aí, 
Cante lá, que eu canto cá.

Você teve inducação, 
Aprendeu munta ciença, 
Mas das coisa do sertão 
Não tem boa esperiença. 
Nunca fez uma paioça, 
Nunca trabaiou na roça, 
Não pode conhecê bem, 
Pois nesta penosa vida, 
Só quem provou da comida 
Sabe o gosto que ela tem.

Pra gente cantá o sertão, 
Precisa nele morá, 
Tê armoço de fejão 
E a janta de mucunzá, 
Vivê pobre, sem dinhêro, 
Trabaiando o dia intêro, 
Socado dentro do mato, 
De apragata currelepe, 
Pisando inriba do estrepe, 
Brocando a unha-de-gato.

Você é muito ditoso, 
Sabe lê, sabe escrevê, 
Pois vá cantando o seu gozo, 
Que eu canto meu padecê. 
Inquanto a felicidade 
Você canta na cidade, 
Cá no sertão eu infrento 
A fome, a dô e a misera. 
Pra sê poeta divera, 
Precisa tê sofrimento.

Sua rima, inda que seja 
Bordada de prata e de ôro, 
Para a gente sertaneja 
É perdido este tesôro. 
Com o seu verso bem feito, 
Não canta o sertão dereito, 
Porque você não conhece 
Nossa vida aperreada. 
E a dô só é bem cantada, 
Cantada por quem padece.

Só canta o sertão dereito, 
Com tudo quanto ele tem, 
Quem sempre correu estreito, 
Sem proteção de ninguém, 
Coberto de precisão 
Suportando a privação 
Com paciença de Jó, 
Puxando o cabo da inxada, 
Na quebrada e na chapada, 
Moiadinho de suó.

Amigo, não tenha quêxa, 
Veja que eu tenho razão 
Em lhe dizê que não mêxa 
Nas coisa do meu sertão. 
Pois, se não sabe o colega 
De quá manêra se pega 
Num ferro pra trabaiá, 
Por favô, não mêxa aqui, 
Que eu também não mêxo aí, 
Cante lá que eu canto cá.

Repare que a minha vida 
É deferente da sua. 
A sua rima pulida 
Nasceu no salão da rua. 
Já eu sou bem deferente, 
Meu verso é como a simente 
Que nasce inriba do chão; 
Não tenho estudo nem arte, 
A minha rima faz parte 
Das obra da criação.

Mas porém, eu não invejo 
O grande tesôro seu, 
Os livro do seu colejo, 
Onde você aprendeu. 
Pra gente aqui sê poeta 
E fazê rima compreta, 
Não precisa professô; 
Basta vê no mês de maio, 
Um poema em cada gaio 
E um verso em cada fulô.

Seu verso é uma mistura, 
É um tá sarapaté, 
Que quem tem pôca leitura 
Lê, mais não sabe o que é. 
Tem tanta coisa incantada, 
Tanta deusa, tanta fada, 
Tanto mistéro e condão 
E ôtros negoço impossive. 
Eu canto as coisa visive 
Do meu querido sertão.

Canto as fulô e os abróio 
Com todas coisa daqui: 
Pra toda parte que eu óio 
Vejo um verso se bulí. 
Se as vêz andando no vale 
Atrás de curá meus male 
Quero repará pra serra 
Assim que eu óio pra cima, 
Vejo um divule de rima 
Caindo inriba da terra.

Mas tudo é rima rastêra 
De fruita de jatobá, 
De fôia de gamelêra 
E fulô de trapiá, 
De canto de passarinho 
E da poêra do caminho, 
Quando a ventania vem, 
Pois você já tá ciente: 
Nossa vida é deferente 
E nosso verso também.

Repare que deferença 
Iziste na vida nossa: 
Inquanto eu tô na sentença, 
Trabaiando em minha roça, 
Você lá no seu descanso, 
Fuma o seu cigarro mando, 
Bem perfumado e sadio; 
Já eu, aqui tive a sorte 
De fumá cigarro forte 
Feito de paia de mio.

Você, vaidoso e facêro, 
Toda vez que qué fumá, 
Tira do bôrso um isquêro 
Do mais bonito metá. 
Eu que não posso com isso, 
Puxo por meu artifiço 
Arranjado por aqui, 
Feito de chifre de gado, 
Cheio de argodão queimado, 
Boa pedra e bom fuzí.

Sua vida é divirtida 
E a minha é grande pená. 
Só numa parte de vida 
Nóis dois samo bem iguá: 
É no dereito sagrado, 
Por Jesus abençoado 
Pra consolá nosso pranto, 
Conheço e não me confundo 
Da coisa mió do mundo 
Nóis goza do mesmo tanto.

Eu não posso lhe invejá 
Nem você invejá eu, 
O que Deus lhe deu por lá, 
Aqui Deus também me deu. 
Pois minha boa muié, 
Me estima com munta fé, 
Me abraça, beja e qué bem 
E ninguém pode negá 
Que das coisa naturá 
Tem ela o que a sua tem.

Aqui findo esta verdade 
Toda cheia de razão: 
Fique na sua cidade 
Que eu fico no meu sertão. 
Já lhe mostrei um ispeio, 
Já lhe dei grande conseio 
Que você deve tomá. 
Por favô, não mexa aqui, 
Que eu também não mêxo aí, 
Cante lá que eu canto cá.

Ao dotô do avião


Seu dotô, fique ciente, 
Tudo aqui tá bem contente 
Proque no sertão chuve. 
Tudo mudou sintido, 
Tem mio e fejão nascido 
E a chapada enverdeceu. 

Toda noite e demenhã 
O sunga neném e a rã, 
A gia e o foi-não-foi, 
Canta e não para um momento, 
Com o acompanhamento 
Do berro do sapo-boi. 

Onde as água já fez poço, 
Que beleza, que colosso, 
Sa uvi os sapo cantá, 
O cururu baculeja, 
Parece dentro da igreja 
Munto devoto a rezá. 

E inquanto o pobre rocêro 
Todo esperto e prazentêro, 
Trata do trabaio seu, 
Depressa fazendo as pranta, 
odo passarinho canta 
Com as voz que Deus lhe deu. 

De verde a terra se cobre, 
Do sofrimento dos pobre 
Jesus agora deu fé; 
A chuva aqui não foi fraca 
Escangaiou a barraca 
Do comprade Zé Quelé. 

Senhô dotô, me perdoi, 
Porém, estas chuva foi 
Obra das leis naturá, 
É esta, que é a chuva nossa, 
Eu nunca segurei roça 
Com chuva artificiá. 

No Nordeste do país 
O dotô propaga e diz 
Que o avião faz chuvê. 
Se o senhô tanto comenta. 
Proque no ano 70 
Dexou tudo se perdê? 

Com as chuva de artifiço 
Proque não fez benifiço 
Ao povo do Ceará? 
Socorrendo esta pobreza 
Pra não dá tanta despesa 
À Sudene e à Cobá? 

Se Jesus não socorresse 
E o povo daqui vivesse 
Esperando a solução 
Da sua triste ingrisia, 
Eu sei que tudo morria 
Sem vê um pé fejão. 

A chuva que moia e cria 
E quando o relampo bria, 
Depois estôra o truvão; 
Dêrne o vale até a serra, 
Nunca vi chuva na terra 
Mandada por avião. 

Quando as nuve se avoluma, 
Formando uma grande ruma 
Que não pode resisti 
Cai a chuva verdadêra 
De roncá na cachuêra 
E o morro se demoli. 

Seu dotô, tome conseio, 
Já que este seu apareio 
Não pode inverno mandá 
Impregue em ôtro trabaio 
Arranje ôtro quebra gaio, 
Que deste jeito não dá. 

Chuvê quero proque quero, 
É coisa que eu não tolero 
E é fato que eu nunca vi, 
Eu vivo inda incabulado, 
Proque no ano passado 
A minha roça eu perdi. 

Seu avião, seu bisôro, 
Tá fazendo um grande agôro 
Cronta as coisa naturá, 
Respeite o Deus Verdadêro, 
Não mexa nos nevuêro, 
Seu dotô, vá se aquetá! 

A muié qui mais amei: poema e declamação por Patativa do Assaré




Era um modelo prefeito 
A muié qui mais amei, 
Linda e simpate de um jeito 
Que eu mesmo dizê não sei.
Era bela, munto bela;
Mode cumpará com ela,
Outra coisa eu não arranjo 
E por isso tenho dito 
Que se anjo é mesmo bonito, 
Era o retrato dum anjo. 

Sei que arguém não me acredita, 
Mas eu digo com razão, 
Foi a muié mais bonita 
De riba de nosso chão; 
Era mesmo de incomenda 
E do amô daquela prenda 
Eu fui o merecedô, 
Eu era mesmo sozinho 
Dono de todo carinho 
Daquele anjo incantadô. 

Era bem firme a donzela, 
Só neu vivia pensando. 
Quando eu oiava pra ela, 
Ela já tava me oiando. 
Mode a agente cunversá 
E o amô continuá 
Quando eu não ia, ela vinha, 
Um do outro sempre bem perto 
Nosso amô dava tão certo 
Que nem faca na bainha. 

E por sorte ou por caprico, 
Eu tinha prata, oro e cobre. 
Dinhêro in mim era lixo 
In casa de gente pobre. 
Nóis nunca perdia os ato 
De cinema e de triato 
De drama e mais diversão, 
Não fartava coisa arguma, 
As nota eu tinha de ruma 
Pra nóis andá de avião. 

Meu grande contentamento, 
Não havia mais amió 
E nossos dois pensamento 
Pensava uma coisa só. 
Pra disfrutá minha vida 
Perto de minha querida 
Eu não popava dinhêro. 
Tanta sorte nóis tivemo 
Que muntas viage demo 
Nas terras dos estranjêro. 

E quando nóis se trajava 
E saía a passiá 
O povo todo arredava 
Mode vê nóis dois passá 
Cada quá mais prazentêro 
Deste nosso mundo intêro 
Nóis dois era os mais feliz, 
Vivia nas artas roda 
E só trajava nas moda 
Dos modelo de Paris. 

Assim a vida corria
E o prazê continuava
Aonde um fosse o outro ia 
Onde um tivesse o outro tava; 
Pra festa de posição 
Das mais arta ingorfação
Nunca fartava cunvite 
Mode dizê a verdade 
A nossa felicidade 
Já passa do limite. 

Era boa a nossa sorte 
E não mudava um segundo 
Ninguém pensava na morte 
E o céu era aqui no mundo. 
Na refeição nóis comia 
Das mais mió iguaria 
Sem falá de carne e arroz 
E por isso munta gente 
Ficava ringindo os dente 
Com ciúme de nóis dois. 

Foi uma coisa badeja 
A vida qui eu desfrutei, 
Mas pra quem tivé inveja
Dessa vida que eu levei
Com tanta felicidade, 
Eu vou dizê a verdade, 
Pois não ingano a ninguém. 
Aquele anjinho risonho 
Eu vi foi durante um sonho; 
Muié nunca me quis bem! 

A história não foi verdade,
Todo sonho é mentiroso 
Aquela felicidade
De tanto luxo e de gozo 
Sem o menó sacrifiço, 
Foi negoço fictiço, 
Não foi coisa verdadêra. 
Eu fiquei dando o cavaco: 
"Estes alimento fraco 
Só dá pra sonhá bestêra". 

De noite eu tinha jantado
Um mucunzá sem tempero 
E acordei arvoroçado 
Sem muié e sem dinhêro; 
Ainda reparei bem 
Mode vê se via arguém 
De junto de minha rede 
Mas, invez de tudo aquilo 
Só uvi cantando os grilo 
Nos buraco das parede. 

Quando acordei tava só 
Sem tê ninguém do meu lado, 
Era munto mais mió 
Que eu não tivesse sonhado. 
Quem já vai no fim da estrada 
Levando a carga pesada 
De sofrimento sem fim, 
Doente, cansado e fraco 
Vem um sonho inchendo o saco 
Piorá quem já tá ruim. 

sábado, 8 de junho de 2019

Eu quero


Quero um chefe brasileiro 
Fiel, firme e justiceiro 
Capaz de nos proteger, 
Que do campo até à rua 
O povo todo possua 
O direito de viver.

Quero paz e liberdade, 
Sossego e fraternidade 
Na nossa pátria natal 
Desde a cidade ao deserto, 
Quero o operário liberto 
Da exploração patronal. 

Quero ver do Sul ao Norte 
O nosso caboclo forte 
Trocar a casa de palha 
Por confortável guarida, 
Quero a terra dividida 
Para quem nela trabalha. 

Eu quero o agregado isento 
Do terível sofrimento, 
Do maldito cativeiro, 
Quero ver o meu país 
Rico, ditoso e feliz, 
Livro do jugo estrangeiro. 

A bem do nosso progresso, 
Quero o apoio do congresso 
Sobre uma reforma agrária 
Que venha por sua vez 
Libertar o camponês 
Da situação precária. 

Finalmente, meus senhores, 
Quero ouvir entre os primores 
Debaixo do céu de anil, 
As mais sonoras notas 
Dos cantos dos patriotas 
Cantando a paz do Brasil. 

"A triste partida": poema de Patativa do Assaré na voz de Luiz Gonzaga




Setembro passou, com oitubro e novembro
Já tamo em dezembro.
Meu deus, que é de nós? 
Assim fala o pobre do seco Nordeste, 
Com medo da peste, 
da fome feroz. 

A treze do mês ele fez a experiença, 
Perdeu sua crença
Nas pedra de sá. 
Mas nôta experiença com gosto se agarra, 
pensando na barra 
Do alegre Natá. 

Rompeu-se o Natá, porém barra não veio, 
O só, bem vermeio, 
Nasceu munto além. 
Na copa da mata, buzina a cigarra, 
Ninguém vê a barra, 
Pois barra não tem. 

Sem chuva na terra descamba janêro, 
Depois, feverêro, 
E o mêrmo verão. 
Entonce o rocêro, pensando consigo, 
Diz: isso é castigo! 
Não chove mais não! 

Apela pra março, que é o mês preferido
Do Santo querido, 
Senhô São José. 
Mas nada de chuva! tá tudo sem jeito, 
Lhe foge do peito 
O resto da fé. 

Agora pensando segui ôtra tria, 
Chamando a famia 
Começa a dizê: 
Eu vendo meu burro, meu jegue e o cavalo, 
Nós vamo a São Palo
Vivê ou morrê. 

Nós vamo a São Palo, que a coisa tá feia; 
Por terras aleia 
Nós vamo vagá. 
Se o nosso destino não fô tão mesquinho, 
Pro mêrmo cantinho 
Nós torna a vortá. 

E vende o seu burro, o jumento e o cavalo, 
Inté mêrmo o galo 
Vendêro também, 
Pois logo aparece feliz fazendêro, 
Por pôco dinhêro
Lhe compra o que tem. 

Em riba do carro se junta a famia; 
Chegou o triste dia, 
Já vai viajá. 
A seca terrive, que tudo devora, 
Lhe bota pra fora
Da terra natá. 

O carro já corre no topo da serra. 
Oiando pra terra, 
Seu berço, seu lá, 
Aquele nortista, partido de pena, 
De longe inda acena:
Adeus, Ceará! 

No dia seguinte, já tudo enfadado, 
E o carro embalado, 
Veloz a corrê, 
Tão triste, coitado, falando saudoso, 
Um fio choroso 
Escrama, a dizê: 

- De pena e sodade, papai, sei que morro! 
Meu pobre cachorro, 
Quem dá de comê? 
Já ôto pergunta: - Mãezinha, e meu gato?
Come fome, sem trato, 
Mimi vai morrê! 

E a linda pequena, tremendo de medo: 
- Mamãe, meus brinquedo! 
Meu pé de fulô! 
Meu pé de rosêra, coitado, ele seca! 
E a minha boneca
Também lá ficou. 

E assim vão dexando, com choro e gemido, 
Do berço querido
O céu lindo e azu. 
Os pai, pesaroso, nos fio pensando, 
E o carro rodando
Na estrada do Su. 

Chegaro em São Palo - sem cobre, quebrado. 
O pobre, acanhado, 
Percura um patrão. 
Só vê cara estranha, da mais feia gente, 
Tudo é diferente 
Do caro torrão.

Ingém de ferro, eu não quero 
Abatê sua grandeza, 
Mas eu não lhe considero
Como coisa de beleza,
Eu nunca lhe achei bonito, 
Sempre lhe achei esquesito, 
Orguioso e munto mau. 
Até mesmo a rapadura
Não tem aquela doçura
Do tempo do ingém de pau. 

Ingém de pau! Coitadinho! 
Ficou no triste abandono
E você, você sozinho 
Hoje é quem tá sendo dono 
Das cana do meu país. 
Derne o momento infeliz 
Que o ingém de pau levou fim, 
Eu sinto sem piedade 
Três moenda de sodade 
Ringindo dentro de mim. 

Nunca mais tive prazê 
Com muage neste mundo 
E o causadô de eu vivê 
Como um pobre vagabundo, 
Pezaroso, triste e pérro, 
Foi você, ingém de ferro, 
Seu safado, seu ladrão! 
Você me dexô à toa, 
Robou as coisinha boa 
Que eu tinha em meu coração! 

O poeta da roça



Sou fio das mata, cantô da mão grossa, 
Trabáio na roça, de inverno e de estio. 
A minha chupana é tapada de barro, 
Só fumo cigarro de páia de mió. 

Sou poeta das brenha, não faço a papé 
De argum menestré, ou errante cantô 
Que veve vagando, com sua viola, 
Cantando, pachola, à percura de amô. 

Não tenho sabença, pois nunca estudei, 
Apenas eu sei o meu nome assiná. 
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre, 
E o fio do pobre não pode estudá. 

Meu verso rastêro, singelo e sem graça, 
Não entra na praça, no rico salão, 
Meu verso só entra no campo e na roça 
Nas pobre paioça, da serra ao sertão. 

Só canto o buliço da vida apertada, 
Da lida pesada, das roça e dos eito. 
E às vez, recordando a feliz mocidade, 
Canto uma sodade que mora em meu peito. 

Eu canto o cabôco com suas caçada, 
Nas noite assombrada que tudo apavora,
Por dentro da mata, com tanta corage 
Topando as visage chamada caipora. 

Eu canto o vaquêro vestido de côro, 
Brigando com o tôro no mato fechado, 
Que pega na ponta do brabo novio, 
Ganhando lugio do dono do gado. 

Eu canto o mendigo de sujo farrapo, 
Coberto de trapo e mochila na mão, 
Que chora pedindo o socorro dos home, 
E tomba de fome, sem casa e sem pão. 

E assim, sem cobiça dos cofre luzente, 
Eu vivo contente e feliz com a sorte, 
morando no campo, sem vê a cidade, 
Cantando as verdade das coisa do Norte.